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TRAIÇÃO FETAL

A circunstância do meu envolvimento no seio da Prevenção do Cancro autoriza-me a uma reanálise destas questões e um renovado interesse pelas possíveis soluções, à luz do confronto da própria experiência no sector com o auspício directo de reputados médicos e sociólogos. Mediante a OMS que previu, recentemente, uma duplicação do cancro para as próximas duas décadas e o presidente do Colégio de Oncologia Médica da Ordem dos Médicos (Jorge Espírito Santo) a reforçar, há dias, a sua preocupação perante uma crise que ameaça afectar o acesso às terapêuticas – recentes – adequadas, antecipo, aqui num formato talvez mais pessoal e singelo, a abordagem de um tema cujo desenvolvimento tem sua difusão prevista para Outubro próximo, nos meios adequados como é óbvio. Tratando-se, este, de um «apanhado» simplificado destinado a determinados grupos de leitores, permitir-me-ei pronunciar-me, aqui, sem grandes detalhes quanto à esfera biológica e/ou epidemiológica.


Um pouco de história

A planta do tabaco ou «petum» é originária das Américas. Em 1492, na ilha de S. Salvador (Antilhas), foram avistados indígenas atidos ao perfume de certas ervas. Anos mais tarde (1500), os marinheiros do Pedro Álvares Cabral tinham visto naturais das terras então descobertas (Brasil) aplicar sobres as feridas uma erva, fumá-la e/ou aspirar as suas folhas secas e reduzidas a pó. Há indícios que permitem admitir que, poucos anos depois, a mesma planta era já cultivada em Lisboa nos jardins reais, embora a sua plantação em Portugal seja frequentemente atribuída a Luís de Goes (1530). Já agora, em España, a preciosa planta terá sido introduzida pela mão de Rodrigo de Jerez, companheiro de Colombo, em 1498. De forma segura se pode afirmar que a erva do tabaco era utilizada como medicamento em Lisboa, em meados do século XVI. Foi encontrada uma carta, datada de 26 de Abril de 1560, enviada por Nicot (embaixador de França na corte de D. Sebastião) ao cardeal de Lorena, onde eram fortemente gabadas as virtudes curativas da planta exótica. Os efeitos da planta depressa convenceram a rainha Catarina de Medicis e assim ficou o nome de Nicot ligado para sempre à designação botânica. Em 1565, Lonitzer a denomina de «Nicotiana», mas essa designação só é definitivamente consagrada dois séculos depois por Linneu. Depressa as sementes são espalhadas pela Europa. A expansão do comércio marítimo encarrega-se de tabaquear o aroma natural do resto do planeta.

Hoje sabe-se que essa extraordinária divulgação não foi devida às virtudes terapêuticas – que na realidade não possuía – mas sim ao gosto e prazer que proporcionava através da sua forte acção geradora de dependência. Como qualquer outro vício danado, a tabacomania nunca negoceia com as mentes fracas dos humanos e a comercialização do vício não tardou em se transformar em negócio dos mais rendosos. Hábeis nas invenções fiscais, rapidamente os governos juntaram-se ao festim e começaram então a auferir proventos cada vez mais substanciais com impostos sacados da cartola estatal.. Até que o clínico francês Buisson dê o alarme em 1859. A partir dessa data os principais beneficiados do negócio tentaram a todo custo silenciar os ecos da maldição do consumo. Os laboratórios foram identificando os factores oncogénicos do fumo, tais como químicos de elevado peso molecular na ordem dos hidrocarbonetos: benzo-a-pireno, dibenzo-a-h-tolueno, dibenzo-a-i-pireno, etc.. Mas há muitas substâncias – mais de 1000 – tais como arsénio, cobre, crómio, acetona, alguns pesticidas também.. enfim, escusar-me-ei, continuar, o resto da “miscelânea” é de fácil dedução.

Por isso, agora sim, vamos a números: até há bem pouco tempo, trezentas mil mortes por ano nos Estados Unidos, cinquenta mil na Grã-Bretanha e cem mil no Brasil, etc. A lista é longa e os valores ultrapassaram o inimaginável tolerável.
O vício não se contenta em “ceifar” na carteira, a saúde desaparece igualmente pelo mesmo “cano”. Pelo que as consequências também arrepiaram os cofres do(s) Estado(s). O reverso do brilhante negócio acarreta prejuízos que rondam os milhares de Euros por cada doente e a dimensão do orçamento estatal comprometido obrigou o executivo a pensar melhor. Foram então legisladas medidas redutivas, consciencializando os consumidores sobre os efeitos perniciosos do tabaco e, recentemente também em Portugal, alicerçadas nobres poupanças na saúde dos fumadores passivos (sob protestos dos fumadores). Já agora: num futuro próximo, soluções igualmente intransigentes são a considerar perante o fenómeno consagrado ao álcool, apesar da forte pressão exercida por parte das associações / institutos vitivinícolas.


Tabacomania feminina

Se pensa que o Tabaquistãoé algo parecido com o Clube da Luz, desengane-se! Em muitos países, nas últimas décadas, elas (minhas conterrâneas de género) tornaram-se também grandes apreciadoras do canudo. Não só aumentou consideravelmente o número de consumidoras e a média de cigarros fumados, como baixou, muito nitidamente, a idade de início do hábito. Enquanto no post-guerra as mulheres começavam a fumar entre os 20 e os 30 anos, hoje adquirem o hábito sensivelmente na mesma idade dos rapazes, isto é, por volta dos 13 anos. Consequentemente, conforme atestam indicações emitidas pela Direcção-Geral de Saúde, tem-se vindo a verificar, nas mulheres, um aumento progressivo da incidência das doenças relacionadas com o tabagismo: bronquite crónica e enfisema, enfarte do miocárdio, cancro do pulmão, etc. Esta última doença que, quarenta anos atrás era considerada quase exclusiva do sexo masculino, está actualmente a atingir, na mulher, proporções nunca anteriormente constatadas.

Não é por acaso que no «Dia Mundial sem Tabaco» tem-se vindo a reforçar o apelo numa estratégia tendencialmente direccionada para as «elas». Confrontada com a previsível perda de quase metade dos fumadores actuais, praticamente no fosso da morte prematura devido a doenças relacionadas com a rotina tabaquista, a indústria tabaqueira logra na comunidade feminina uma enorme oportunidade, sustenta a Organização Mundial de Saúde (OMS). O «Marketing de arremesso» procura nicotizar a população (feminina) jovem, que é a faixa etária onde se tem registado um maior acréscimo de consumo. O recurso à elegância, sofisticação, glamour, atribuindo-lhe o efeito “redutor de apetite” e/ou embalagens angelizadamente desenhadas fazem parte da astuciosa táctica aplicada ao tenebroso cilindro.

A situação não é exclusiva de Portugal, em Inglaterra, entre 1959 e 1973 o coeficiente de mortalidade por cancro do pulmão nos homens aumentou de 8 %, o que significa um certo abrandamento do crescimento em relação aos decénios anteriores. Ora, no mesmo período de tempo, nas mulheres, verificou-se um crescimento do coeficiente de mortalidade por essa doença, da ordem dos 50 %.
Outro exemplo: nos Estados Unidos, para o sexo feminino, os coeficientes de mortalidade por cancro do pulmão, que rondavam os 4,7 em 1950, subiram para 19,5 em 1976. Em 1978, nesse mesmo território, a doença ocupava já o segundo lugar no ranking das neoplasias mais frequentes na mulher, prevendo-se que ultrapassaria, dentre de pouco, o cancro da mama, o então líder da tabela. E, de facto, assim aconteceu: nos Estados Unidos, o cancro mais mortífero para as mulheres é já, na actualidade, o cancro do pulmão.

França na escapa à regra, segundo a epidemiologista Catherine Hill (Instituto Francês de Vigilância Sanitária), a bronquite crónica obstrutiva é hoje titular de mais de 16 mil mortes por ano. Em 10 anos, a taxa de mortalidade por essa bronquite aumentou em 21% para homens e 78% para mulheres.

Nesse mesmo país, em 1990, sem descriminação de géneros, mais de 50 000 óbitos foram rubricados só pela mão do tabaco e do álcool juntos. Em relação a esta famosa dupla, igualmente muito amiga dos portugueses, uma nota: alguns dos principais cancerígenos do tabaco, como o já referenciado benzo-a-i-pireno, são solúveis no álcool, o que explica a maior incidência relativa ao cancro da boca, faringe e esófago nos fumadores que, simultaneamente, são bebedores excessivos. Outros cancros como o do pâncreas, do rim e da bexiga são igualmente namoradeiros do tabaco. A colecção de neoplasias fertilizáveis pela acção «iniciadores tumorais» do tabaco é de facto assustadora.

Afastando-me de qualquer pretensão nos estudos epidemiológicos descritivos ou analíticos, a de notar: além do tabagismo exercer, pois, no sexo feminino, as mesmas acções nocivas que se verificavam no sexo oposto, o organismo da mulher metaboliza com mais dificuldade os produtos carcinogénicos da nicotina, daí mais susceptível de desenvolver complicações. Portanto, nada de tentar imitar os rapazes para se merecer notoriedade ou, a médio prazo, essa «triste igualdade» vai repercutir-se na incidência de uma formosa neoplasia pulmonar de saia e saltos altos, conforme certificação do oncologista António Araújo (IPO). Ora é, precisamente, neste ponto que se situa a dinâmica da minha publicação de hoje.


Tabagismo e pílula

Como já vimos, fumar constitui um factor de risco considerável de desenvolvimento de doenças cardio-vasculares, nomeadamente de trombose coronária ou enfarte do miocárdio. Mas o uso de medicamentos anti-concepcionais orais pela mulher, exerce efeitos do mesmo tipo. A associação desses dois factores – uso habitual da pílula aliado ao tabagismo – aumenta os efeitos nocivos de cada um deles. Dados oficiais publicados nos Estados Unidos indicaram que o uso habitual dos anti-concepcionais orais, por si só, determina um aumento da taxa de incidência de enfartes do miocárdio, de 50 %, nas mulheres acima dos 30. Mas quando se associa ao uso da pílula, hábitos tabágicos, a taxa de enfarte sobe extraordinariamente até aos 75 %.

Investigações levadas a efeito em Inglaterra, envolvendo dezenas de milhares de mulheres, apontam no mesmo sentido, mostrando igualmente uma incidência muito mais elevada de enfartes nas mulheres que, sendo fumadoras, fazem uso dos anti-concepcionais orais.

Também a incidência de hemorragias cerebral e de trombo-embolia de outras localizações são mais frequentes nas mulheres que tomam este medicamento (incidência 6,5 vezes maior em relação às mulheres que os não tomam). Essa incidência aumenta para 22 vezes mais em mulheres fumadoras.

Há, pois, evidência inequívoca de que os anti-concepcionais orais e o tabaco têm acções sinérgicas, sendo o acréscimo de risco resultante do seu emprego simultâneo suficientemente importante para se considerar que o tabagismo é “contra indicação” para o uso da pílula. Mas mulheres a partir dos 30 anos de idade que não conseguem (…) deixar de fumar, devem abster-se de usar os anovulatórios e adoptar métodos anti-conceptionais alternativos (condignos). Sobre esta matéria, não faço comentários elementares. Se, com esta publicação e não só, viso apoiar, alertar e proteger o(a)s mais fragilizado(a)s, manter-me-ei fiel à coerência dos meus princípios morais, com ou sem leis coercivas ditadas pelas maiorias.

Retomando o “fio à meada”: foram analisados os dados referentes à idade do estabelecimento da menopausa, em 57 000 mulheres, em estudos efectuados nos Estados Unidos e em vários outros países. Todos os exames indicam de forma concordante, que o uso do tabaco antecipa a idade da menopausa, verificando-se uma relação de tipo dose-resposta, isto é, quanto maior é o número de cigarros fumados diariamente, mais precocemente se estabelece a menopausa. Admite-se que a acção dos agentes tabacais sobre o sistema nervoso possa ter repercussões sobre as secreções hormonais que regulam o período de fertilidade feminina.


Fertilidade e gravidez

Esta acção do fumo do tabaco deve ser encarada como uma das mais dramáticas, exercidas indirectamente sobre o(a)s que não fumam. O feto de mãe fumadora deve ser considerado o símbolo do «fumador passivo» – que sofre, sem qualquer hipótese de defesa (ou queixa na APAV), os efeitos prejudiciais da tabacomania, veiculados através do organismo materno.

Os recém-nascidos cujas mães não se abstém de fumar durante a gravidez apresentam uma média de peso inferior à normal. O baixo peso ao nascer constitui factor de risco de mortalidade nos primeiros tempos de vida. Diferenças de peso que variam de 150 a 280 gr são encontrados em cerca de 30 % dos recém-nascidos de mães dependentes do fumo.

A incidência de prematuridade, traduzida por recém-nascidos com peso inferior a 2,500 kg, é também mais elevada nessas mães. Outro estudo incidido sobre 200 000 partos, mostrou que, em mulheres que teimosamente continuavam a puxar pelo cigarro durante a gravidez, a incidência de prematuros foi 50 % superior. Paralelamente, as investigações mostram ainda que o menor peso ao nascer das crianças filhas de gestantes fumadoras, é um fenómeno geral, e isto independente da raça, das condições socio-económicas e/ou da distribuição geográfica.

Estudos prospectivos levados a cabo em vários países (e posteriormente confirmados por análises cuidadosas a fim de afastar eventuais erros por interferência de factores acessórios), permitem concluir que o número de abortos espontâneos entres as gestantes fumadoras é quase duplo do que é constatado nas não fumadoras. A incidência de anomalias congénitas, em especial cardiopatias, aumenta consideravelmente em sujeitos oriundos de uma gestação minada pela tabaquista.


Conclusão

Uma gravidez interrompida (mortalidade perinatal), dar à luz nado-mortos ou ainda, com maior frequência, deixar ao mundo uma descendência com poucas condições de resistência (com sequelas permanentes) são habituais, embora se desconheça ainda todos os efeitos que os numerosíssimos componentes do fumo porventura exercem no conjunto constituído pelo organismo materno, sistema útero-placentário e compleição fetal.

Apesar deste texto conter alguns detalhes embaraçosos, ocultei os mais aflitivos. A nós, mulheres, foi-nos confiado uma das mais nobres tarefas ao serviço da vida: o futuro. Ao aceitá-la, é nossa mais profunda missão honorificar cada esforço, cada sopro, dado que a base para a aliança das sucessivas gerações repousa no cumprimento de todos os valores primordiais exigidos. A dignidade do simbolismo feminino não se resume a tristes exuberâncias empunhadas de direitos, neste ponto, como, aliás, em tantos outros, exercidos com egoísmo ou ignorância. A dignidade é reguladora da liberdade!

Laetitea

 

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